sexta-feira, 28 de maio de 2021

O REI SANGUINÁRIO DA BÉLGICA

 

        Quem foi o maior ditadorou genocida da história? Hitler? Stalin? Mussolini? A disputa é interessante, mas neste caso, irei incluir o rei belga Leopoldo II, menos discutido dentre os três citados. Acredito que haja mais líderes que provocaram milhares de mortes na história, porém neste texto, iremos expor um pouco a história do monarca que ordenou a escravidão e matança do povo de Congo.

            Fruto do segundo casamento de Leopoldo I da Bélgica, bem como o segundo filho da realeza. Após o primeiro casamento, seu pai acabara por perder a esposa, assim como o primogênito no parto. Leopoldo II nasce, então, no ano de 1835. Mesmo sendo o segundo filho da realeza, ele consegue assumir o trono. Leopoldo ainda teria um terceiro irmão, Filipe, este pai do futuro Rei Alberto I, da Bélgica. O futuro rei sanguinário ainda se casaria no dia 22 de agosto de 1853, em Bruxelas. O matrimônio com a Arquiduquesa Maria Henriqueta da Áustria concebeu quatro filhos ao casal.

        O século XIX foi marcado dentre várias revoluções – conhecido inclusive como século das revoluções segundo Eric Hobsbawn – como o período do auge imperialista conduzido pelas potências europeias. Neste caso, o continente africano foi repartido e explorado. A Bélgica não ficou fora e Durante o Reinado de Leopoldo II, variadas medidas polêmicas foram instituídas. A maior delas foi o regime sanguinário implementado na colônia africana que hoje conhece-se como República Democrática do Congo.

Antes denominada como Estado Livre do Congo, as medidas promovidas por Leopoldo eram consideradas revoltantes. Tidas, inclusive, como um dos escândalos nacionais mais indignos durante o fim do século XIX. A grande polêmica dizia respeito por ter sido atribuído ao Rei dos Belgas a responsabilidade pelo genocídio local. Durante as expedições para coleta de borracha, sobretudo, estima-se que foram mortos mais de 100 congoleses a sangue frio.

         Durante o período em que instituiu uma matança desenfreada no Congo, Leopoldo se proclamava como o Soberano Livre do Congo. Ocorrendo uma dizimação sem precedentes, o Rei ainda instituía punições severas aos escravos do local. A pena para os que não coletassem borracha suficiente seria a de decepar partes das mãos e braços. Caso a meta não fosse alcançada em um dia, a mão seria amputada, se voltasse a acontecer, o antebraço teria o mesmo fim.

Por esses e outros motivos que Leopoldo II, em seu discurso e atitudes, é muito comparado a Hitler por historiadores. Um fato interessante aconteceu em 2020, quando a estátua em homenagem ao rei em Bruxelas foi derrubada por grupos antirracistas. O grupo chamado "Vamos reparar a história" exige a retirada do espaço público, em Bruxelas, de todas as estátuas de Leopoldo II. Os signatários desta petição acusam o ex-monarca de ter "exterminado" milhões de congoleses.

Por: Fernando Ribeiro.

Fonte: HOBSBAWM, Eric J. Nações e nacionalismo desde 1780. São Paulo: Editora Paz & Terra, 2012.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Hitler e o misticismo

 


            Sem dúvidas, Adolf Hitler foi e é uma das figuras mais analisadas na História Contemporânea. Portanto, tentarei abordar algo que ainda foi pouco explorado, neste caso, a ligação de Hitler com o misticismo. Poucas pessoas sabem que o líder alemão era adepto da astrologia e de passagens da Bíblia, assim o fuhrer se considerava um predestinado a mudar os rumos da humanidade.

         Toda essa paranoia de Hitler iniciou em uma suposta visão que teve em campos de batalhas durante a Primeira Guerra Mundial – isso mesmo, Hitler lutou na Grande Guerra – Segundo relatos no livro Meim Kampf (Minha Luta), o então soldado Adolf Hitler recebeu uma mensagem divina no qual o local que estava receberia uma granada. Atordoado, conseguiu salvar alguns soldados que estavam juntos a ele. De fato, uma granada explodiu próximo a ele, provocando em si, um ferimento em sua audição. Por sua bravura, recebeu uma medalha de mérito. Entretanto, o fato nunca foi esquecido pelo futuro chanceler alemão que mais tarde usaria como forma de se promover.

            O fato dos nazistas difundirem que a raça ariana seria superior as outras não é novidade. Desde do século XIX existe uma visão de que povos germânicos são superiores, isso fica claro por exemplo, na unificação alemã, no qual esta visão foi utilizada por então marechal de ferro Otto Von Bismarck. Por isso que Hitler propagava a ideia do Terceiro Reich, pois de acordo com os alemães, o primeiro grande reino germânico foi entre 962 a 1806, conhecido como Sacro Império Romano, o segundo criado por Bismarck. Nesta tentativa de impor suas ideias malucas, Hitler utilizava do misticismo como por exemplo a sua obsessão pela Lança de Longinus. Segundo a tradição, a lança foi usada por um soldado romano para perfurar o corpo de Jesus. Uma antiga profecia informou que nem um osso do Messias seria quebrado e a lança de Longinus muito contribuiu para essa previsão fosse cumprida, pois, a não-reação de Jesus ao ser perfurado favoreceu o diagnóstico de que ele já havia morrido. Assim, Hitler acreditava firmemente que ao ter a lança em seu domínio, conseguiria vencer qualquer batalha, pois segundo sua crença, a lança concedia poderes mágicos. Em sua vida como fuhrer, Hitler acreditava que a lança de Longinus estava escondida na França, por Napoleão Bonaparte. Se Hitler encontrou-a, ninguém sabe.

       Segundo o escritor Caio Fábio, em seu livro Nephilim (1999), Hitler era profundamente influenciado pelo poder dos elementos místicos. O escritor teve como base uma série de pesquisas para mostrar as “incontestáveis” relações entre Hitler e o Ocultismo, e como ele não apenas tinha experiências de natureza espiritual aterradoramente demoníacas, como também buscava a interferência de médiuns em suas decisões. É verdade que o século XIX foi um cenário de avanço de novas ideias e perspectivas tanto no campo filosófico, quanto no contexto religioso, muitos pensadores desenvolveram novas visões e, neste caso, Adolf Hitler foi influenciado por tais. Segundo a revista Escala, edição de 2010, o ditador alemão supostamente mantinha consigo profundos conhecimentos ocultistas, os quais poucos homens ocidentais conheciam naquela época. Desta forma, tais conhecimentos eram utilizados como processo de dominação.

            Outro ponto importante ligado ao misticismo de Hitler, era que o próprio fuhrer acreditava que seria um encarnado de Jörg Lanz Von Liebenfels, este foi considerado um dos primeiros teóricos do nazismo. Isso mesmo, as teorias nazistas não foram criadas por Hitler e sim, aperfeiçoadas e mais, divulgadas e implantadas com sucesso. A própria suástica, símbolo do nazismo, é na verdade uma adaptação de um símbolo milenar, surgido provavelmente na Índia Antiga. Voltando ao assunto “encarnação”, Hitler estudou e conhecia os segredos dos planos espirituais, sabia por exemplo, que os Espíritos trabalhavam em grupos, segundo as suas frequências e também que reencarnam segundo estes grupos. Goebbls, ministro da propaganda nazista e Göering, marechal do governo nazista, sempre diziam que reencarnaram por várias vidas ao lado do fuhrer.

            São muitas informações sobre o tema que não cabem neste simples texto informativo. Sem dúvidas, o assunto merece uma pesquisa aprofundada, até porque, a dominação nazista e a imagem de Adolf Hitler ainda promove incertezas.

Por: Fernando Ribeiro

Fonte: Revista Escala, edição 2010.

terça-feira, 13 de abril de 2021

O rei D. Sebastião - o desaparecimento e o mito.

 


         Sabemos que os portugueses são extremamente cristãos, a sua história prova isso, mas esperar por um rei até os dias atuais, já é demais. Existe uma crença em Portugal desde o século XVI, conhecida como Sebastianismo, no qual o rei D. Sebastião – o Desejado; o encoberto; o Salvador da pátria – voltaria para o reino português nos braços do povo, que tanto te espera.

       A história o rei D. Sebastião começou quando no início do século XVI o rei João Manuel morreu subitamente, um fato até então normal, até os príncipes morrem, porém neste caso, até seus irmãos tinham morrido. Um problema surgiu, a sucessão portuguesa. O que se sabe é que um dos filhos do falecido rei, que também veio a falecer (o destino foi cruel) deixou a esposa grávida e com isso, um herdeiro nobre para assumir o trono. Após várias vigílias e orações, o parto foi bem sucedido, nascia assim, D. Sebastião, rei de Portugal e Algarves. Até atingir a maioridade, regentes nobres tomaram as decisões de Portugal. Tanto a educação de D. Sebastião quanto o governo de Portugal foram marcados pela forte presença da Igreja, especificamente dos jesuítas. A inquisição foi consolidada e as colônias ganharam bispados. Aos 14 anos, D. Sebastião alcançou a maioridade e assumiu o trono.

       Com a mania de nobre, D. Sebastião se lançou nas guerras de conquistas, também conhecidas como Cruzadas. Em uma dessas batalhas contra os mouros no norte da África, o jovem rei desapareceu. Dizem que a última frase de Sebastião no campo de batalha, antes de liderar um ataque desesperado contra o exército inimigo, teria sido: “Senhores, a liberdade real só há de se perder com a vida”. E então, teria investido seu cavalo contra as linhas inimigas.

      De fato, ninguém sabe o que houve de verdade com o rei, até porque o corpo nunca foi encontrado. E o que não faltaram foram boatos e conversas sobre o que teria sido do Rei perdido. Teve quem viu ele morrer, teve quem viu ele fugir, teve quem encontrou ele em Veneza anos depois, teve quem fingiu ser o rei desaparecido.

     Infelizmente para o povo português o rei nunca voltou e pior, não deixou herdeiros. O tio-avô, D. Henrique, assumiu o trono, mas acabou morrendo em dois anos. Enquanto os portugueses ainda lamentavam sua perda, a nobreza europeia disputava o comando do país e suas colônias. Afinal, havia muitos nobres portugueses espalhados pelas cortes. Nesta disputa, o rei espanhol Felipe II – que apresentava parentesco com o rei sumido – levou a melhor e uniu as duas coroas ibéricas. Durante 60 anos, houve o que ficou conhecida como União Ibérica, Portugal controlado pelos espanhóis, para o povo português, uma vergonha e humilhação. Sem dúvidas, este fato potencializou a imagem, o nacionalismo e a crença da volta de D. Sebastião, o salvador da pátria.

      O sebastianismo é uma crença real na atualidade, acredita-se que centenas de portugueses acreditam na volta do rei que para muitos, é santo. Existe inclusive uma igreja que promove cultos religiosos em referência ao rei/santo/salvador D. Sebastião. Não é de se duvidar das crenças portuguesas, não é hoje que este povo acredita em maldições, premonições, milagres divinos, basta investigar a sua história.

Por Fernando Ribeiro

Fonte: MARTINS, Oliveira. História de Portugal. São Paulo: Editora Vercial, 2010.


segunda-feira, 5 de abril de 2021

TIRADENTES: HERÓI OU UMA CRIAÇÃO DE 1889?

 


Joaquim José da Silva Xavier, vulgo Tiradentes, talvez seja umas das figuras históricas mais conhecidas do Brasil sendo considerado um herói nacional, isso se deve muito ao golpe militar de 1889, conhecido como Proclamação da República. Até aquele ano, Tiradentes não era tão conhecido, sendo apenas um personagem que liderou um movimento republicano na antiga Vila Rica (MG), portanto considerado traidor pela monarquia brasileira, tudo isso se alterou após a tomada de poder pelos militares em 1889. Se Tiradentes foi herói ou não, vamos conhecer sua história e a criação de sua imagem, como foi dito por José Murilo de Carvalho em seu livro A formação das almas: o imaginário da república no Brasil.

            Diferente do que os livros de história diziam até os anos 2000, Tiradentes não era um homem pobre, esse discurso era reforçado devido a sua sentença de morte, neste caso, foi o único condenado a forca por participação da Inconfidência Mineira de 1789. Já é comprovado que o suposto herói, fazia parte de uma classe média de Vila Rica pois, era proprietário rural, dono de escravos, era minerador, ou seja, continha uma lavra, além de tropeiro e com uma patente militar, alferes – espécie de primeiro tenente – dito isto, percebe-se sua condição econômica.

            Tiradentes como outros pertencentes a elite mineira, estavam descontentes com os impostos metropolitanos, em um momento em que a exploração do ouro estava em decadência. Devido à cobrança de dívidas atrasadas e ameaças de prisão, conhecido como “derrama”, essa elite organizou um movimento às escondidas, o intuito era derrubar a coroa portuguesa, com apoio de toda colônia. Pela primeira vez se falou em república meus caros, se falou em independência da colônia, algo que somente as Treze Colônias Inglesas ousaram a deflagra. Fato é que o movimento foi traído por um membro que em troca do perdão de suas dívidas denunciou todos. Em um julgamento que durou 2 anos, todos foram punidos com o exílio exceto Tiradentes, que confessou ser o líder da inconfidência, por isso foi o único condenado a pena de morte, foi enforcado no Rio de Janeiro. Posteriormente, seu corpo foi esquartejado e seus membros expostos na estrada real entre a capital da colônia e Vila Rica. A história da Inconfidência Mineira quase foi apagada pela monarquia brasileira, porém com a Proclamação da República, buscava-se um herói nacional, que fosse distinto dos até então heróis ligados a dinastia dos Bragança como D. Pedro I e seu filho. Desta forma, o alferes Joaquim José da Silva Xavier foi o escolhido pelo Marechal Deodoro e seu grupo para se eternizado na história brasileira como um mártir. Para reforçar essa tese, sua imagem foi recriada, algo próximo a Jesus Cristo, quem foi traído e levado a pena de morte, como o herói republicano. Nada se sabe sobre a verdadeira imagem de Tiradentes, talvez a imagem que abre este texto seja algo próximo do que seria o suposto herói, pois se baseou no uniforme de um alferes. A figura de Tiradentes foi potencializada durante o regime civil-militar (1964-1985) no qual um feriado foi criado para conduzir mais ainda a figura do inconfidente e reforçar a perspectiva republicana.

            De fato, Tiradentes foi um personagem importante para o movimento inconfidente, considerado líder deste, entretanto há outros personagens que se destacaram no desenvolvimento da Inconfidência, como Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa considerados intelectuais, entre outros. É bom sempre lembrar que a Inconfidência Mineira, influenciada pelo iluminismo, não alcançava todas as liberdades e igualdades como afirma o movimento francês, isso fica claro quanto a abolição da escravidão, no qual não foi discutido entre os líderes do movimento mineiro. A visão de herói é muito relativo, neste caso, prefiro outros personagens que não ganharam o prestígio merecido, citando entre muitos, Maria Quitéria, nossa Joana d’Arq.

Por Fernando Ribeiro.

Fonte: DORIA, Pedro. 1789: A história de Tiradentes e dos contrabandistas, assassinos e poetas que lutaram pela independência do Brasil. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017.

CARVALHO, José Murilo d. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das letras, 2004.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Peste Negra - a doença que assombrou a Europa no século XIV.

 



    Para os supersticiosos, era uma maldição divina devido aos pecados humanos. Aqueles que não acreditam na ciência e na observação rigorosa da natureza, buscam entender alguns fatos (quase todos) justificando em teorias divinas. De fato, uma das maiores epidemias da história não estava relacionada com um tipo de castigo divino, mas sim com a realidade apresentada na Idade Média. A chamada Baixa Idade Média (X-XV) é caracterizada pela ressurgimento urbano e consequentemente com o crescimento comercial. Várias rotas foram criadas com objetivo de alimentar as cidades medievais, era necessário buscar produtos nas Índias - termo que se refere a região da China, Índia, Paquistão, Irã, Iraque - para comercializar na Europa. Não havia nestas cidades comerciais uma infraestrutura adequada, consta que era comum assistir as pessoas conviverem com o lixo e animais, local ideal para proliferação de doenças, foi o que aconteceu. Acredita-se que a enfermidade teve sua origem na Mongólia e se espalhou pelo Ocidente através dos barcos que realizavam o comércio entre Ásia e Europa
    Os relatos sobre a peste negra foram registrados durante a guerra entre genoveses e mongóis travada na cidade de Caffa (atual Teodósia), na Península da Crimeia, em 1346. Ao ver que os mongóis muçulmanos morriam, os genoveses católicos atribuíam à doença à justiça divina, pois era um sinal inequívoco que Deus estaria do lado dos cristãos. Quando a contenda acaba, os genoveses voltam à Península Itálica levando a bordo ratos que hospedavam pulgas e eram elas que transmitiam a bactéria da doença. Outro caminho de propagação foi a Rota da Seda por onde passavam as caravanas vinda do Oriente em direção aos mercados europeus. Esses ratos entrarão em contato com seus pares europeus e assim é disseminada a enfermidade a partir de portos como Veneza, Marselha, Barcelona, Valência, etc. A contaminação era muito rápida e a morte bem sofrida. Para se ter uma ideia, uma única pessoa contaminava uma cidade inteira. Cerca de 25 milhões de pessoas morreram, isso significa 1/3 da população europeia. Fato importante é que a peste negra na verdade é uma evolução da peste bubônica, isso aconteceu devido ao ambiente propício que já foi relatado acima. Os sintomas da peste negra eram parecidos aos de uma gripe muito forte, porém com a importante diferença que os gânglios inchavam. Então, apareciam na pele protuberâncias que se pareciam aos bulbos das plantas. Por conta disso, a enfermidade também recebe o nome de "peste bubônica".
    Ao lado, uma vestimenta de médicos, acreditava que este estilo de máscara protegia da contaminação. Outro fato é que alguns médicos descobriram que o fogo era algo que de certa forma, protegia da contágio, assim muitas pessoas viviam sempre rodeados de fogueiras, principalmente autoridades reais e religiosas, isso mesmo, é sempre bom lembrar que doenças não escolhem cor e nem classe social. Destacamos também o termo quarentena, tanto usado nos dias atuais devido a pandemia da Covid-19. Segunda consta, o termo surgiu na França, devido a peste. Quando a doença estava no auge do contágio, as autoridades francesas obrigavam os navios mercantis a ficarem ancorados no mar antes da mercadoria ser deixada nos portos, este tempo era de 40 dias. Na Europa, as medidas de quarentena foram pioneiras. Frente ao número assustador de mortes diárias, cada cidade estipulou uma organização baseada nas informações e condições presentes na época. Assim, o continente tornou-se uma referência, ou seja, a quarentena funcionou.
    Voltando a superstição e o tal castigo divino, era comum assistir pessoas se alto flagelando, pois acreditavam que desta forma, conseguiram o perdão de Deus e consequentemente o fim da doença. Bom, ainda bem que existiam pessoas que através de estudos e observações conseguiram criar medidas para controlar a doença. Durante muitos anos, a peste negra foi o grande medo da humanidade, opss, da Europa e Ásia, pois a América e a Oceania ainda viviam em anonimato.
    
    Em alguns aspectos, a realidade da Idade Média não é distinta da atual: discurso religioso, superstição, medicações sem comprovação, falta de conhecimento. Durante muito tempo, a peste foi o maior assassino da história, posto este perdido em 2020. 

Sugestão de documentário
 

Por Fernando Ribeiro
Fonte: LEGOFF, Jacques. Por amor às cidades. São Paulo: Unesp, 1998.
 




 

quarta-feira, 24 de março de 2021

Quem foi o místico Rasputin?


       No final do século XIX, um país ainda vivia sob o controle de uma monarquia absolutista, isso mesmo meus caros, absolutista. Se pensarmos que a maioria destes modelos de governo extremamente centralizados e envolvidos em uma figura real, já tinha se desmoronado em quase toda a Europa no início do século XIX. Entramos no século XX e o Império Russo era governado pela dinastia dos Ramanov e mais, devido à grande superstição que rondava a família real russa, um mago era figura frequente nos corredores do palácio de São Petersburgo, era o bruxo Rasputin. Segundo consta, devido a uma grave doença do herdeiro do trono russo – hemofilia – a czarista e esposa do czar Nicolau II buscou de toda forma controlar a doença do filho, como não existia uma cura naquele momento, o mago foi descoberto e colocado ao lado da família imperial.
    O que se sabe sobreo mago/bruxo é que desde a juventude, já demonstrava um comportamento peculiar. Nascido Grigori Iefimovitch Novikh, talvez na segunda metade da década de 1860, em um vilarejo na Sibéria, foi apelidado de Rasputin, possivelmente em decorrência de suas práticas sexuais na adolescência, já que o nome tem a mesma raiz que a palavra raspoutny, que significa depravação. Dentre suas práticas místicas incluíam-se a participação nas reuniões dos khlysty, membros de uma seita que unia religião e erotismo. Nos cultos realizados em igrejas abandonadas, homens e mulheres se entregavam a danças, com vestes transparentes, que acabavam quase sempre em transes e orgias. A trajetória deste camponês pobre siberiano, que depois de ter afirmado ter visto a Virgem Maria no campo e iniciado uma peregrinação por mais de dez meses, passando por vários mosteiros, proporcionando um pequeno conhecimento da escrita e também de práticas rituais religiosas, causou forte oposição dos nobres da corte do czar, em decorrência do poder que exercia sobre a família real.
    Como seus supostos poderes conseguiram de certa forma diminuir as dores de Alexis – nome do herdeiro – conseguiu adquirir alguns privilégios além é claro de palpitar na política russa, criando assim, vários inimigos que o consideravam um charlatão. Havia boatos que corriam entre a população que existia um romance entre Rasputin e a Czarina Alexandra, que nunca foi confirmado. De fato, os dois eram muitos próximos, causando mais ainda um cenário nebuloso. Sua morte foi planejada pela aristocracia russa, que desejava seu fim. É sempre bom lembrar que, a Rússia estava enfrentando uma grave crise econômica, social e política e para piorar, resolveu entrar na Primeira Guerra Mundial, assunto para outro momento.
   O assassinato do mago/bruxo também traz fatos curiosos, na noite de 29 para 30 de dezembro de 1916, o místico caiu em uma armadilha criada pelo príncipe Félix Iussupov, auxiliado pelo grão-duque Dimitri Pavlovitch, o deputado Purichkevitch, o tenente Sukhotin e o médico Lazovert. Em uma suposta festa na casa do príncipe, Rasputin sofreu algumas tentativas de envenenamento que não foram capazes de matá-lo, sendo os organizadores da ação homicida obrigados a alvejar de balas o mujique, e o jogar nas gélidas águas do Rio Neva, em São Petersburgo. Dois dias depois encontraram o corpo mutilado e coberto de gelo, mas com as mãos erguidas, como se estivesse tentando se soltar das cordas que o amarravam. A autópsia do corpo indicou a presença de água no pulmão, que funcionou como um reforço à fama de místico, pois mesmo envenenado e alvejado, a causa de sua morte havia sido o afogamento e o frio. Em 1917 a família dos Ramanov foi executada pelos revolucionários vermelhos, os bolcheviques.


Recomendação: Os Últimos Czares - Série documental. Netflix.

Texto adaptado
Por: Fernando Ribeiro
Fonte: PIPES, Richard. História concisa da Revolução Russa. 1990.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Conde D'Eu e a Guerra do Paraguai.

    Louis Philippe Marie Ferdinand Gaston, Príncipe de Orléans e conde d’Eu, nasceu em Neuilly, em 28.04.1842, filho do duque de Nemours, que era um homem muito rigoroso e severo. Ainda criança, em 1848, seu avô, o rei Luís Filipe, foi deposto e exilado com a família, em Londres. Lá, o jovem conde recebeu educação rigorosa: intelectual, moral, religiosa, física (ginástica, equitação, vertigem, banho gelado, natação em rios gelados). Em Edimburgo, fez a high school. Os Orléans produziram gerações de guerreiros pela honra (um Orléans não foge à luta) e pela pátria (na guerra da Argélia), inclusive alheia (o duque de Penthièvre e o conde de Paris lutaram na guerra civil americana). Dizia-se que os Orléans não têm medo e têm o diabo no corpo. (Aliás, seguindo essa tradição familiar, os filhos de Gastão, no exílio, também seguiram carreira militar na Europa, sendo que dois deles lutaram na 1ª Guerra Mundial.) A princesa Isabel foi prometida ao então conde, assim os laços entre França e Brasil seriam selados. Os brasileiros nunca viram o Conde D’Eu com bons olhos, sempre se referiam a ele como o “francês”, existia no país um certo medo de que o conde assumisse o poder após a morte de D. Pedro II, no Terceiro Reinado. Isso se confirmaria nas atitudes da herdeira, pois só tinha olhos para a religião. Uma ótima oportunidade de se consagrar para o imperador e para a população brasileira seria na Guerra do Paraguai. Desta forma, em 1869 o genro do imperador foi enviado para o front, com o objetivo simples, finalizar a guerra e capturar o ditador Solano López. O clima era tenso aos pés da cordilheira paraguaia em agosto de 1869. A guerra estava praticamente ganha, mas por desejo de D. Pedro II, o exército brasileiro seguia em busca da cabeça – de preferência viva – do “tirano” Francisco Solano López. Às vésperas da última grande batalha do conflito, a de Campo Grande, um impaciente Gastão de Orléans, administrava seus homens e se mostrava insatisfeito por não ter surpreendido o inimigo em Ascurra, quartel-general dos perseguidos. A caça continuava. Alguns relatos paraguaios e de brasileiros é que o conde estava fissurado na ideia de destruir a nação paraguaia e para isso algumas táticas consideradas crimes de guerra foram utilizadas, segundo as ordens de D’Eu. Aprisionamento de crianças paraguaias; execução de mulheres e idosos. Uma das batalhas mais tristes desse conflito ficou conhecido como a Batalha de Acosta ñu, quando várias crianças paraguaias foram enviadas para o front, sem perceber, o exército brasileiro dizimou-o.
    Faltava a captura do ditador, que foi feita em 1 de março de 1870, em Cerro Corá, território paraguaio, “morro com minha pátria”, disse Solano antes de ser alvejado por um soldado brasileiro. Conde D’Eu recebeu os méritos por ter guiado o exército a vitória. Existe um ditado entre as mães paraguaias até hoje, mencionado o conde D’Eu como uma forma de ameaça a seus filhos, “Cuidado, o Conde D’Eu vai te pegar!”. Por Fernando Ribeiro Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional, edição 97, 2013.