segunda-feira, 5 de abril de 2021

TIRADENTES: HERÓI OU UMA CRIAÇÃO DE 1889?

 


Joaquim José da Silva Xavier, vulgo Tiradentes, talvez seja umas das figuras históricas mais conhecidas do Brasil sendo considerado um herói nacional, isso se deve muito ao golpe militar de 1889, conhecido como Proclamação da República. Até aquele ano, Tiradentes não era tão conhecido, sendo apenas um personagem que liderou um movimento republicano na antiga Vila Rica (MG), portanto considerado traidor pela monarquia brasileira, tudo isso se alterou após a tomada de poder pelos militares em 1889. Se Tiradentes foi herói ou não, vamos conhecer sua história e a criação de sua imagem, como foi dito por José Murilo de Carvalho em seu livro A formação das almas: o imaginário da república no Brasil.

            Diferente do que os livros de história diziam até os anos 2000, Tiradentes não era um homem pobre, esse discurso era reforçado devido a sua sentença de morte, neste caso, foi o único condenado a forca por participação da Inconfidência Mineira de 1789. Já é comprovado que o suposto herói, fazia parte de uma classe média de Vila Rica pois, era proprietário rural, dono de escravos, era minerador, ou seja, continha uma lavra, além de tropeiro e com uma patente militar, alferes – espécie de primeiro tenente – dito isto, percebe-se sua condição econômica.

            Tiradentes como outros pertencentes a elite mineira, estavam descontentes com os impostos metropolitanos, em um momento em que a exploração do ouro estava em decadência. Devido à cobrança de dívidas atrasadas e ameaças de prisão, conhecido como “derrama”, essa elite organizou um movimento às escondidas, o intuito era derrubar a coroa portuguesa, com apoio de toda colônia. Pela primeira vez se falou em república meus caros, se falou em independência da colônia, algo que somente as Treze Colônias Inglesas ousaram a deflagra. Fato é que o movimento foi traído por um membro que em troca do perdão de suas dívidas denunciou todos. Em um julgamento que durou 2 anos, todos foram punidos com o exílio exceto Tiradentes, que confessou ser o líder da inconfidência, por isso foi o único condenado a pena de morte, foi enforcado no Rio de Janeiro. Posteriormente, seu corpo foi esquartejado e seus membros expostos na estrada real entre a capital da colônia e Vila Rica. A história da Inconfidência Mineira quase foi apagada pela monarquia brasileira, porém com a Proclamação da República, buscava-se um herói nacional, que fosse distinto dos até então heróis ligados a dinastia dos Bragança como D. Pedro I e seu filho. Desta forma, o alferes Joaquim José da Silva Xavier foi o escolhido pelo Marechal Deodoro e seu grupo para se eternizado na história brasileira como um mártir. Para reforçar essa tese, sua imagem foi recriada, algo próximo a Jesus Cristo, quem foi traído e levado a pena de morte, como o herói republicano. Nada se sabe sobre a verdadeira imagem de Tiradentes, talvez a imagem que abre este texto seja algo próximo do que seria o suposto herói, pois se baseou no uniforme de um alferes. A figura de Tiradentes foi potencializada durante o regime civil-militar (1964-1985) no qual um feriado foi criado para conduzir mais ainda a figura do inconfidente e reforçar a perspectiva republicana.

            De fato, Tiradentes foi um personagem importante para o movimento inconfidente, considerado líder deste, entretanto há outros personagens que se destacaram no desenvolvimento da Inconfidência, como Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa considerados intelectuais, entre outros. É bom sempre lembrar que a Inconfidência Mineira, influenciada pelo iluminismo, não alcançava todas as liberdades e igualdades como afirma o movimento francês, isso fica claro quanto a abolição da escravidão, no qual não foi discutido entre os líderes do movimento mineiro. A visão de herói é muito relativo, neste caso, prefiro outros personagens que não ganharam o prestígio merecido, citando entre muitos, Maria Quitéria, nossa Joana d’Arq.

Por Fernando Ribeiro.

Fonte: DORIA, Pedro. 1789: A história de Tiradentes e dos contrabandistas, assassinos e poetas que lutaram pela independência do Brasil. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017.

CARVALHO, José Murilo d. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das letras, 2004.